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06.05.2008
ECONOMIA
Especulação com a fome

Os investidores e a crise alimentar global

Ellen Brown

Periódicos de economia têm colocado em evidência títulos do tipo “Como aproveitar a crise alimentar global”. Entre os investimentos sugeridos, encontram-se ações das empresas do setor agroindustrial e os Exchange-Traded Funds (ETF) que especulam com commodities agrícolas. Estes investimentos farão muito bem à crise alimentar global. Mas antes de colocar seu dinheiro no prato, você quer saber se isso ajuda a aliviar ou a agravar o problema? Você quer realmente investir na fome?

No artigo The role of speculators in the global food crisis [O papel dos especuladores na crise alimentar global], publicado no último dia 23 de abril no saite alemão Spiegel Online, Balzli e Horning observam que “muitos investidores (...) simplesmente ignoram o fato de que investir no cassino global significa desperdiçar o fornecimento diário de alimentos às populações mais pobres do mundo” (1).

Jean Ziegler, relator especial sobre os direitos à alimentação pelas Nações Unidas, definiu a explosão da crise alimentar como “um silencioso homicídio em massa”. Em entrevista ao jornal Frances Liberation de 14 de abril, Ziegler declara: “Estamos nos dirigindo a um longo período de conflitos e ondas de incontrolável instabilidade regional, testemunhado pelo desespero das populações mais vulneráveis”. Ele culpa a globalização e as multinacionais por “terem monopolizado as riquezas do planeta” e diz que uma revolta da massa contra os seus opressores é possível, como foi possível a Revolução Francesa. Em alguns lugares, ela já está acontecendo. No Haiti, por exemplo, onde o preço do arroz quase duplicou desde dezembro, o primeiro ministro foi recentemente demitido pelos senadores da oposição depois de mais de uma semana de greves contra o aumento dos preços dos alimentos básicos. Em Bangladesh, o preço do arroz também dobrou. Na Costa do Marfim os preços aumentaram de 30% para 60% de uma semana para outra, o que se repetiu no Egito, Uzbequistão, Iêmen, Filipinas, Tailândia, Indonésia e Itália.

Mais gente comendo? Biocombustíveis?

Em artigo publicado no Wall Street Journal, intitulado Load up the pantry [Encham a despensa], Brett Arends observa como as agitações pelos alimentos (de primeira necessidade) que se vêem nos países em desenvolvimento poderiam logo alcançar os estadunidenses também. Segundo ele, os preços altíssimos não estão atravessando uma fase transitória; estão, na verdade, acelerando. Arends aconselha fazer reserva de alimentos – não porque se espera uma carestia, mas como investimento, porque “os preços dos alimentos estão aumentando muito mais rapidamente do que os rendimentos que se podem obter com depósito no banco ou em fundos de mercado monetário”. Arends prossegue: “A razão principal do aumento dos preços é naturalmente o aumento da demanda da China e Índia. Centenas de milhares de pessoas a cada ano se somam à classe média, e isso significa que querem comer mais e melhor”. Uma razão secundária seria a demanda de etanol, sempre crescente, como aditivo para combustíveis, o que está absorvendo uma parte da oferta de grãos (2).

Bem, essa é a justificativa lógica do jornal Wall Street, a comunidade financeira que criou a bolha imobiliária, a bolha dos derivados e agora a bolha das commodities, que produziu a crise dos subprimes, a crise do crédito e a crise do petróleo. Segundo esse autor, a razão principal da crise alimentar é que as classes médias chinesas e indianas estão comendo melhor. Será verdade? O arroz, por séculos, foi o alimento-base da população mundial, e com certeza não se encontra na mesa de um milionário. Além disso, segundo análise conduzida pela Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas, o consumo de grãos aumentou apenas em um por cento desde 2006 (3). Isso dificilmente explica o fato de o preço do arroz ter saltado 75% em apenas dois meses. O preço do arroz branco tailandês (de nível B, de acordo com os parâmetros mundiais) triplicou desde 2007 e aumentou 10% só em uma semana. Ok, o fato de que os grãos sejam desviados para os biocombustíveis é inegavelmente um fator que contribui, mas não é suficiente para explicar esses repentinos aumentos de preço. Dos anos 80 pra cá, a taxa de natalidade da população mundial diminuiu drasticamente, e a disponibilidade dos grãos continuou a superar a população (4). Os biocombustíveis consumiram parte desses grãos, mas não apareceram de uma hora para outra - nem a classe média asiática. Se esses fossem os elementos principais, o aumento dos preços dos alimentos teria sido gradual e previsível.

Comida para alimentar o lucro: é o capitalismo comendo o próprio rabo

Outra explicação pelo repentino aumento dos preços vem citada por esta articulista, mas é sugerido por outros analistas. William Pfaff escreveu no International Herald Tribune, em 16 de abril: ainda mais importante é o efeito da especulação dos alimentos como commodity – equiparado ao petróleo e aos metais preciosos. Ele se transformou no refúgio dos investidores financeiros que escapam dos bens de papel, infectados por hipotecas subprime e outros produtos tóxicos do crédito. O afluxo dos compradores arrasta os preços e faz com que os alimentos não estejam mais ao alcance dos pobres do mundo. “O dinheiro dos fundos, derramado na agricultura, fez com que os preços subissem às estrelas”, disse aos jornalistas o analista Abah Ofon, da Standard Chartered Bank.“É a moda: este e o ano das commodities agrícolas”, resume. (5)

Os “capitais vagantes” que abandonaram a bolha estourada do mercado imobiliário estão agora se dirigindo à bolha das commodities, da qual agora fazem parte os gêneros de primeira necessidade. Trata-se de um afluxo de capital especulativo à procura de altos rendimentos, que se movem rapidamente de um mercado a outro, mas não porque os produtos são melhores, e sim porque o spread especulativo é melhor. O dinheiro não é investido para criar bens ou serviços, mas simplesmente por puro lucro. Os preços dos alimentos são arrastados pelos especuladores, que hoje incluem investidores pequenos, como eu e você, que jogamos no mercado de futuros agrícola, através dos EFT, que abriram um mercado lucrativo – até então disponível somente aos grandes jogadores.

A teoria econômica convencional afirma que os preços aumentam quando a demanda é maior que a oferta. No entanto, nesse caso, “demanda” não é o número de pessoas que procuram alimento, mas a quantidade de dinheiro colocado no jogo pelas reservas existentes. A crise alimentar global resultou num aumento não do número de bocas a alimentar, mas simplesmente dos preços. É a oferta monetária, que aumentou, e é o dinheiro investido à procura de rápidos lucros, que estão fazendo aumentar os preços. Boa parte dessas coisas está acontecendo no mercado de futuros, onde os gerentes tentam maximizar os próprios lucros utilizando contratos [para entrega e pagamento] futuros. Balzli e Horning explicam: “O mercado de futuros é um clássico instrumento para os agricultores venderem as colheitas antes do tempo. Nesse tipo de contrato, a quantidade, o preço e a data de entrega são fixados ainda antes que as sementes sejam plantadas. Ele permite que agricultores e atacadistas tenham uma proteção em caso de má colheita e oscilações de preços. Agora, os especuladores querem aproveitar este mecanismo. Eles podem, por exemplo, comprar contratos de grãos com preço baixo, apostando que ele suba. Se ele aumentar antes da data acordada para a entrega, eles lucram. Alguns analistas crêem que estes investidores tenham dominado o mercado, comprando futuros a preços sem precedentes e forçando-os a subir em curto prazo. De agosto pra cá, esse mecanismo fez o preço do arroz dobrar.

Alguns autores citam o atacadista Greg Warner, que é categórico: “O que está acontecendo hoje no mercado de futuros é sem precedentes”. Normalmente, explica ele, temos um grupo previsível de vendedores e compradores – principalmente agricultores e operadores de silos. Mas o panorama mudou com o evento do grande afluxo de fundos no mercado de futuros. “Os preços continuam a subir”, salienta. Warner estima que agora os investidores detenham o direito de duas colheitas completas de certo tipo de trigo negociado em Chicago, chamado trigo vermelho macio invernal. Ele define esses fatos como assombrosos e os aponta como “a prova de que o capitalismo está literalmente se consumindo por si mesmo”.

Transgênicos ajudariam?

Então, o que dizer das empresas do setor agroindustrial como a Monsanto, que promoveram a “revolução verde” através da bioengenharia dos alimentos e da produção de sementes geneticamente modificadas, fertilizantes sintéticos, herbicidas e pesticidas? Pelo menos estas empresas darão uma mão para atenuar a fome no mundo? Muito pelo contrário, dizem os críticos, estas empresas estão lançando os preços às alturas. As sementes com patente OGM da Monsanto foram geneticamente preparadas de modo a não poderem se reproduzir; têm de ser recompradas a cada ano. Os pequenos agricultores que caíram no engano de uma maior produtividade e predispuseram seus terrenos a essas sementes e produtos químicos descobriram que não só a produção reduziu, como também o terreno não poderá mais ser cultivado se não com sementes OGM (7). Os agricultores que não conseguem mais comprar as sementes são excluídos do mercado, passando um controle monopolístico às mãos dos gigantes do setor agroindustrial, que podem elevar os preços a qualquer cifra que o mercado possa sustentar – e que, no caso da alimentação, será muito alta, quase ao ponto da escravidão. Como disse Henry Kissinger, “quem controla a alimentação controla as pessoas; quem controla a energia controla inteiros continentes; quem controla o dinheiro controla o mundo.”

Freando a fome e a crise agrícola

Então, no que se pode investir para conseguir atenuar a crise alimentar global? Uma possibilidade é a agricultura biológica local. A Agricultura Sustentada pela Comunidade (ASC) é um modelo de produção, venda e distribuição que visa aumentar a qualidade dos produtos e o cuidado com o território, as plantas e os animais, reduzindo ao mesmo tempo perdas e riscos para os produtores. Vários sistemas ASC já estão em uso no mundo, permitindo ao pequeno produtor ter um pequeno e florescente mercado fechado, que garante aos membros-clientes, ao mesmo tempo, entregas regulares e uma colheita de produtos genuínos. O saite USDA fornece um elenco de endereços e saites das ASC dos Estados Unidos (8).

Fica pendente o problema da especulação sobre os futuros. Como eliminar os lucros parasitários dos intermediários que não produzem nada e proteger o agricultor? O mercado de futuros foi criado para o agricultor que tinha necessidade de bloquear o preço hoje e teria coberto os custos tendo um discreto lucro no futuro. Uma proposta interessante e a política do preço “ao par” que vigorava nos anos 30, que garantia que os preços recebidos pelos agricultores cobrissem os preços que eles pagavam pelos fatores produtivos mais um razoável lucro. Se o agricultor não conseguisse obter o preço, o governo comprava a produção, colocava-a nos silos e vendia depois. O governo na realidade tinha um pequeno lucro com a transação; os preços se mantinham estáveis, o sistema agrícola de gerência familiar era preservado, bem como a tutela da oferta de alimentação nacional. Com o avanço da globalização nos decênios sucessivos, este sistema foi substituído pelos financiamentos a empresas agrícolas, que preferiram as exportações em detrimento da venda local, ao mesmo tempo em que as grandes agroindústrias se empenharam na agricultura química, devastando a agricultura sustentável, obrigando milhares de famílias a cessar a atividade.

Uma solução definitiva ao problema da inflação global exige uma reforma do sistema bancário central, que causou uma bolha atrás da outra no último século (9). Quer investir em commodities sem ficar com a consciência pesada? Compre ouro, que não é combustível nem alimento-base de ninguém.

1 Beat Balzli, Frank Hornig. Deadly Greed: The Role of Speculators in the Global Food Crisis.  Spiegel Online, 23 de abril de 2008.
2 Brett Arends. Load Up the Pantry. Wall Street Journal, 21 de abril de 2008.
3 2007-2008 World Food Price Crisis. Wikipedia.
4 Ibidem.
5 William Pfaff, Speculators and Soaring Food Prices. International Herald Tribune, 16 de abril de 2008.
6 Balzli & Hornig, op. cit.
7 William Engdahl. Seeds of Destruction (Global Research 2007), citado por Stephen Lendman in Unleashing GMO Seeds: Food is Power. Global Research, 19 de janeiro de 2008.
8 Alternative Farming Systems Information Center. usda.gov. Veja também Community-supported Agriculture - Wikipedia.
9 Veja www.signoraggio.com/signoraggio_schemaponzi.html

Notas da versão em português:
ao par: cuja cotação de mercado iguala a do valor nominal ou oficial (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)
spread: diferença entre o preço de compra (procura) e venda (oferta) da mesma ação ou transação monetária (Wikipédia)
subprimes: créditos de alto risco com taxas pós-fixadas, concedidas por bancos a clientes sem comprovação de renda e com histórico ruim de crédito; abrangem desde empréstimos hipotecários até cartões de créditos e aluguéis de carros. (Wikipédia)
exchange-traded funds (ETF):  fundos de investimento, negociados em bolsa como se fossem ações, cuja grande vantagem é permitir a diversificação da carteira de investimento com um custo baixo - geralmente muito inferior ao de fundos tradicionais. (www.saldopositivo.cgd.pt)

Ellen Brown é doutora em jurisprudência. Tem desenvolvido suas habilidades em pesquisa como advogada em Los Angeles. Em "Web of Debt", seu livro mais recente, a autora revela essa habilidade numa análise sobre a Federal Reserve e a “confiança monetária”, mostrando como esta instituição privada usurpou o poder de criar dinheiro e explicando como o povo poderia reavê-lo. Brown já publicou onze livros, entre eles, o bestseller "Nature's Pharmacy", escrito em colaboração com a doutora Lynne Walker, que já vendeu 285 mil exemplares.

Fonte: www.signoraggio.com/signoraggio_specularesullafame.html - 30/04/2008. Versão em português - adaptada: www.dalbosco.org.br

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